Denis Azevedo estacou. Nunca vira um vermelho tão real, tão próximo... O odor de ferro preenchia o recinto. Absolutamente enjoado, sentiu as primeiras contrações que trariam a lembrança do jantar de horas atrás. A força que fazia seu corpo inteiro se contorcer era enorme, por isso, se apoiou com o braço esquerdo no aparador de mármore claro à sua frente.
A Perfeição estava aos seus pés. Em um domínio que já não fazia parte do seu. Sua existência cessara naquele momento, o que restara era um carcassa vazia. Sua vida, se estinguira.
Denis tentou localizar as fotos em sua mente. A lembrança de um amanhã que chegaria pela metade. Um sorriso que não receberia, e todos os planos, tantos planos, que não concretizaria. A Perfeição existira. Agora teria que se acostumar em usar todos os verbos no passado, quando se referisse a ela. Seria um velho, solitário, se recordando de tudo de bom que tivera em sua vida, e como, dentre todas as coisas que um homem pode ter, lhe foi tirado a única que jamais possuiria, de maneira tão bruta, tão cruel.
Com o pano que veste seu antebraço, e este protegendo suas narinas do cheiro invasor repugnante, deu sua última olhada àquilo que representara qualquer possibilidade de felicidade futura, nos seus sonhos infantis, agora tão distantes. Libertou o ar de seus pulmões, resignado, e fechou a porta, que rangeu.
Num lapso, se lembrou daquela frase: Na vida, não temos nenhum certeza além de que vamos morrer. E de que esse é o maior alívio que um homem pode ter.
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