Se lembra quando assistíamos àqueles filmes antigos, e nos abraçávamos nos lugares públicos, e as pessoas em geral não nos olhavam com bons olhos, e sempre chagavamos fora da hora em casa, e a galera era muito chata, em um domingo qualquer nos setíamos entediados, e nós tínhamos todo o direito do mundo, afinal nos amávamos.
Se lembra que nós nunca desistimos de dar nossas cabeçadas, embora a ponta da faca fosse bastante afiada e as pessoasao nosso redor em geral dissessem que isso nunca iria dar em nada, e as escolhas feitas seriam apenas outras noites jogadas fora e o mundo continuava girando enquanto brincávamos de esconde-esconde.
Se lembra que um dia desejamos forte que fôssemos os únicos, e que esses sonhos não passaram desapercebidos, e as pessoas ao nosso redor, em geral viam como estávamos enganados, e que mesmo assim nunca fomos proibidos, e que escondido não faziámos nada, nada, nada.
Se lembra quando a vida era um céu estrelado, e de noite nos sentíamos como os astros, e não havia porque pensar quando nossa algegria fazia tanto sentido e tudo já havia sido descoberto, e nós vivíamos como selvagens, e não havia perigos que não pudéssemos juntos enfrentar, e a vida era apenas um jardim florido, onde nós colhiámos nossos doces frutos, e nos presenteavamos com as flores do nosso encanto, para que estivessemos cada vez mais enfeitados, cada vez mais enfeitiçados.
Se lembra quando um abraço era um lugar físico e morávamos em algo parecido com isso, e nos sentíamos acolhidos em nossas vozes, e fora da nossa paisagem havia um muro que nos tornava especiais, pois estávamos fora do mundo, e as pessoas ao redor não se importavam o bastante para derrubá-lo e por dentro nós brilhávamos protegidos, nós sabiamos que isso não poderia dar errado, e nosso universo nao havia pecados, e no geral, estávamos convencidos disso.
Os cinemas eram lugares públicos e separados não havia nada, por dentro brilhávamos como estrelas num céu já descoberto, e a ponta da faca costumava estar cada vez mais amolada, e uma flor era o melhor dos motivos, e os dias pareciam mais longos enquanto nos braços um do outro, dávamos nossas cabeçadas, e em um domingo qualquer brincávamos de esconde-esconde, embora as pessoas em geral não nos proibissem, afinal nós éramos tipos especiais de selvagens e tinhamos todo o direito do mundo, e para sempre fazia todo sentido.
E do outro lado do nosso muro não havia nada, nada, nada.
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